Ana Zanatti
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Agradece o Beijo

«Agora que tudo acabou, fecho os olhos e vejo os meus mortos no seu voo tranquilo sobre a cabeça dos prédios da cidade.
Invade-me um cheiro a flores e a terra molhada. Olho à minha volta e pergunto-me que memórias despertará este cheiro em cada um dos presentes… Que imagens estarão a desfilar dentro das suas cabeças?
Na minha, espreita de novo a criança que trago cá dentro, frágil, insegura, sonhadora, voando direita à ilha dos Morangos para trazer à mãe as folhas da Árvore dos Sorrisos.
Sim, que todos transportamos numa cavidade recôndita uma criança silenciada mas viva, à espera de se fazer ouvir, ainda que seja só quando a velhice chegar. Essa criança não murcha, não perde cor nem memória, não cria rugas nem perde a folha, por muito que a queiramos esconder e ignorar.
Um dia, há sempre um dia, ela amarinha por nós e vem perguntar: lembras-te, lembras-te?»